
domingo, 6 de abril de 2008
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
Objeto de desejo
Ele saiu desesperado de casa sem contar para onde ia. A mãe o chamava desesperada afinal, do jeito que era "otimista", já achava que coisa boa não era. O garoto corria muito, fôlego não lhe faltava. No auge dos seus 13 anos, nada poderia alcançar aquele par de pernas apressadas que rumavam em direção a velha loja do Nicolau. O velho Nicolau tinha uma loja de bugigangas na esquina da alameda principal. Não era grande, mas era bem frequentada pelos moradores da cidade. Tinha gente que vinha de longe atrás dos "trecos" que o Nicolau vendia. Lá tinha um pouco de tudo: livros, cds, algumas estatuetas, móveis, jóias, entre outras tantas e milhares de velharias que tomavam conta do comércio. O menino enfim chegara e exausto. Acho mesmo que só se deu conta do cansaço, quando ali na porta recostou. O Nicolau abriu um sorriso e logo brincou com o garoto: _" Mas não é que o guri voltou?". O velho simpático se referia ao episódio ocorrido naquela manhã. Ao chegar pontualmente as 8 à porta do estabelecimento, Nicolau se deparou com o guri, que já estava a sua espera. O menino estava afoito e inquieto. Pedia ao Nicolau que abrisse logo. O velho suspendeu a porta de aço, e o garoto num piscar de olhos, procurou a estante ao fundo do recinto. O que buscava ainda estava ali, na segunda prateleira do móvel. Havia ido cedo a loja para se certificar pessoalmente de que o objeto que queria, não havia sido vendido. E foi dali que ele saiu mais rápido do que havia entrado. Correu muito até sua casa, (uns 3 quarteirões de distância), entrou como um furacão, subiu ao quarto e pegou o cofrinho. Da mesma forma acelerada que entrou, saiu. Correu e chegou até lá, onde então parou. Após um suspiro prolongado à porta do Nicolau, o garoto entrou, mas dessa vez fez diferente: foi até o balcão, onde o velho prestava atendimento aos clientes e apresentou o cofrinho. Arrastou-o até o velho que sem pestanejar abriu e contou as economias do pequeno. Nicolau se expressou com aprovação, e convidou o menino a pegar o seu esperado bibelô. O menino tinha nos olhos um brilho só. Estava radiante. Enfim possuia o que desejara por 3 meses. Voltou para casa, subiu ao quarto, abriu a gaveta do meio e pegou o álbum. Com todo cuidado executou a colagem: era a figurinha que faltava!
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
Como contava Clarice...
"Faz de conta que ela nao estava chorando por dentro -pois agora mansamente, embora de olhos secos, o coração estava molhado...". Assim acordara ela esta manhã...Assim, assim, sem muito ânimo, com medo de tudo. Eu disse a ela que tudo isso era passageiro, que o tempo fluía...Mas que tudo passava. Ela me olhou como se não acreditasse naquilo que eu falava. Parecia mais que eu encarnava o velho amigo otimista afim de não deixar o outro ainda pior. Ela insistia em chorar e dizer que estava tudo perdido...Que tudo tinha sido em vão. Seus esforços para tentar melhorar a situação, suas tentativas em criar momentos felizes. Eu ainda continuei otimista mas, tamanha a crise vivida por ela, eu acabava sendo influenciado pelo drama. Eu mais do que nunca queria ajudar e já não sabia mais como. Ela disse que eu não precisava ficar. Disse que eu podia ir, que ela estava bem e que ficaria bem sozinha, precisava pensar na vida. Naquele momento percebi que o melhor era partir. Saí daquela sala escura de cabeça baixa e ainda numa última tentativa, perguntei se ela não precisava de mais nada. Ela, sem ânimo nenhum, só me respondeu com um balançar de cabeça. Fechei a porta com cautela, sem dizer mais nada. No dia seguinte, a encontrei pelos corredores da faculdade. Estava diferente! Parecia outra pessoa. Os olhos ainda inchados, eram disfarçados por algumas gramas de maquiagem. O batom, que antes claro, agora era vermelho vivo. As roupas decotadas, a calça justa. Não havia quem não a fitasse. Mas diante de todo aquele acontecimento, algo ali estava claro: "embora de olhos secos, seu coração ainda estava molhado".
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